quarta-feira, 21 de março de 2012

Não tem tradução mesmo não

Outro dia, andando por ai, me deparei com uma sacola cheia de cds quebrados. Peguei curioso e vi que eram daqueles antigos, que hoje em dia pouco se escuta, mas que tem seu valor maior que aquilo que muito se escuta. Tinha vários nomes ali: Noel Rosa, Nara Leão, Rita Lee e por ai vai. Seja dita a verdade, eram todos pirateados, com suas capas desbotadas e seus discos marcados a canetão azul e vermelho, vermelho e azul, com a única finalidade de distinguir um do outro e nada mais. De resto, seriam todos os mesmo pedaços de... sei não.  A seleção é boa mesmo, pensei eu, mas tá tudo ferrado, concluo eu.
E não fez diferença nenhuma porque cópia virtual daquilo é fácil de encontrar e pronto. Acabei por abandonar a sacolinha velha em uma lixeira mais velha ainda e é assim que a história deveria terminar. Deveria, mas não irá. É que Foz do Iguaçu tem o dom de me surpreender sem me surpreender e isso me assusta. Há pouco menos de um ano aqui já existe na gaveta material para um livro inteiro de contos, e inspiração para muita poesia – se bom ou ruim eu sei lá, mas estão aqui. A sacola de cds velhos com seus antiquados e arranhados artistas quase esquecidos, gritou lá do fundo da lixeira quando lhe dei as costas e me pus a caminhar, e nem percebi a principio - o que a fez gritar mais. Quando me virei para amarrar a boca da infeliz, tinha outro infeliz ali me encarando, com o plástico na mão:
- Hei seu moço, tem certeza que não vai querer isso aqui? – e eu nem perguntei o nome dele, agora que paro para pensar, mas estava meio rasgado, jeans sujos, pés descalços e o cabelo sambando na cara da sociedade. Se pudesse o chamaria de Israel, sei lá por que.
- Estão todos muitos riscados e eu nem tenho como reproduzir, então não quero mesmo – e eu nem me perguntei se o dono daquilo tudo havia deixado o tesouro inútil ali por ter pegado de rabo a mesma conclusão.
- É som do bom, eu vou levar então – falou Israel vasculhando aquele mundo plástico.
- É do bom mesmo, eu brinco que no meu enterro vai ser tocada Fita amarela do Noel – e era verdade mesmo, tenho amigos de testemunhas.
- Noel é do bom, meu pai tocava pra mim. Quando mãe morreu a gente tocou Meu barracão com a Bethânia cantando, mas eu acho que ela ia preferir Não tem tradução, seu moço. Gostava muito – e eu nem percebi na hora que Israel estava triste.
Dá saudade, seu moço, dá saudade.
- É verdade – disse com a cabeça baixa, olhando meu pé calçado. E nem dei tchau a Israel, que sumiu antes que pudesse fazer qualquer coisa.
Fitei a lixeira e vi que a sacola estava lá. Dei as costas e saí andando.
Perdi a bossa, e voltei ao barracão.



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